CultClubMúsica #1 - The Getaway, Red Hot Chili Peppers


Nem todos casamentos acabam mal, e alguns até tem o tempo certo de acabar. E mesmo sendo uma pena o fim do relacionamento entre Rick Rubin e os Peppers, este era um daqueles namoros que já estavam sufocantes, e que as duas partes se sentem na obrigação de 'conhecer outras pessoas'. Apesar disso, é bem difícil saber o quão importante é a possibilidade que a contra parte do casal tem de te moldar conforme sua própria personalidade, e pra que isso aconteça puramente, é necessário que você também queira! Por isso Danger Mouse é o crush perfeito para essa nova etapa dos filhos da Califórnia. Você já deve ter ouvido falar de Mouse, que entre tantos nomes que produziu, posso citar de começo The Black Keys e Gorillaz, além de integrar ao lado de Ce Loo Green a conceituada Gnarls Barkley.
The Getaway vazou e não, não tem funk. E já passou da hora de você desapegar disso, amiguinho! Agora que tivemos tempo suficiente pra conhecer Josh e perceber que de Frusciante ele só tem o cargo, não devemos mais nos enganar. Klinghoffer tem sua maneira singular de tocar, os Peppers o quiseram assim e os novos trabalhos serão assim! E não, não está ruim, acreditem! Apesar de estar parecendo mais um apanhado de restos do I'm With You somado a referências Indie e oitentistas. De qualquer forma, assim como seu antecessor, não é ruim!

É dada a largada, e o disco tem início com as três primeiras faixas que já foram liberadas. A faixa título do álbum nos saboriza gradualmente, mas em seus primeiros segundos já nos cagueta um grande trunfo: o flerte com o eletrônico. Sem exageros, vale ressaltar. O beat bem marcado, com a percussão bem participativa, casa com o baixo simplório e a guitarra 'aquática', que riffa o refrão inteiro. Isso confirma muito a preferência de Klinghoffer por riffs com acordes concretos, apostando mais em modulação que agressividade, um oposto discrepante do passado remoto dos Peppers. 
'Dark Necessities' tem uma introdução instigante e um piano marcante, e que me deixou curioso sobre como vai ser performance ao vivo (você vai matar a curiosidade junto comigo logo ali em baixo). Somos reapresentados ao slaps de Flea e um refrão chiclete, com lindos e sutis backing vocals (que também me atiçam a curiosidade). O que fica claro a partir daqui é o efeito meio flanger que a bateria ganhou. Uma coisa meio Led Zepellin, com o perdão da comparação. 
Sobre 'We Turn Red', vou ser sucinto: É o máximo de funk que vocês acharão em todo disco, apesar da batida remeter bastante a ritmos nordestinos (provável influência de Mauro Refosco, percussionista brasileiro que excursionou com a banda de 2011 até então).

A partir daqui, as coisas ficam 'inéditas'. Nenhuma destas músicas foi divulgada publicamente como as três anteriores e é aqui que a atenção redobra! E quando as expectativas estão no ápice, as pupilas dilatam e os tímpanos estão esperançosos, vem 'The Longest Wave', uma balada. De início, decepcionante, mas de lindo refrão. Algumas coisas do restante lembram o Stadium Arcadium, álbum duplo de 2006, em que muitos acreditam ter pecado pelo excesso. Apesar disso, uma das maiores obras de Rick Rubin desde Blood Sugar Sexy Magic. Uma dessas claras características está em 'Goodbye Angels', que tem o que eu gosto de chamar de um dos maiores bons vícios de Kieds, os 'riffs vocais'. Além do final explosivo e que destoa do restante da música (e um dos melhores momentos do CD até aqui).

Eu disse que o I'm With You ainda estava ecoando e as próximas duas canções não me deixam mentir. 'Sick Love' tem cheiro de praia e foi inevitável não lembrar da tão praiana quanto 'Did i Let You Know', enquanto 'Go Robot' começa com uma dançante linha de baixo e bateria eletrônica, algo muito 'Factory of Faith'. Vale mencionar que 'Sick Love' conta com a participação de ninguém menos que o eterno rocket man, Elton John!

Na intermediária, o disco acaba ficando massante. Algumas musicas, infelizmente, acabam não agregando muito, apesar da boa construção. E mesmo tentando evitar as comparações, acabo sentindo falta dos picos e surpresas que eram proporcionadas em outros trampos dos caras. 'Feasting on the Flowers' é o famoso 'mais do mesmo', e suas sucessoras tentam uma lenta crescente, que chega atrasada demais para a 'cereja do bolo' no fim do álbum. 'Detroit' e 'Encore' são puláveis, apesar de belas. A mais triste das baladas, 'The Hunter', tem outro repeteco do disco de 2011: o troca-troca entre Flea e Josh. Enquanto o guitarrista assume a nada complicada linha de baixo, o mais uma vez marcante piano fica por conta de Flea. Nesse meio tempo, o único choque térmico é em 'This Ticonderoga', um punk a moda antiga e um fio de oxigênio na sufocante e repetitiva parte final. O disco acaba com outra bela canção, que segue o mesmo roteiro das anteriores, mas se destaca pela absurda transição entre sutileza e punch, algo que foi mal explorado ao longo de todo disco. Isso tudo torna 'Dreams of a Samurai' uma das melhores de todo álbum.

Apesar de novo, nada de tão novo. As diferenças pontuais são o namoro mais firme entre Chad e os beats eletrônicos e o excesso de músicas sem extremos em sequência. Depois da oitava faixa a sensação que fica é aquele momento chato do filme que te dá um pouco de sono. De qualquer forma, cada música tem sua particularidade bem evidente, e esse ponto tornou o álbum singular. Pra ficar um ótimo disco, só faltou mais umas duas ou três 'pesadas' ali no meio, pra dosar melhor a longevidade que o indie/dub aconteceu, intuitivamente.


O clipe de 'Dark Necessities', primeira música de trabalho do disco, já está disponível na página oficial da banda no Facebook. Ele foi dirigido pela atriz Olivia Wilde e você pode assisti-lo clicando aqui.
Os caras também já a executaram ao vivo! Isso rolou no Rock am Ring deste ano, confira aqui! (Você pode conferir o show inteiro aqui)

The Getaway, Red Hot Chili Peppers (2016)
Produzido por Danger Mouse e mixado por Nigel Godrich
1 - The Getaway
2 - Dark Necessities
3 - We Turn Red
4 - The Longest Wave
5 - Goodbye Angels
6 - Sick Love
7 - Go Robot
8 - Feasting on the Flowers
9 - Detroit
10 - This Ticonderoga
11 - Encore
12 - The Hunter
13 - Dreams of a Samurai

Nota: 7,5